Amigos do Rogers

17 de junho de 2013

Resenha sobre Lygia Bojunga Nunes

Para ser um grande escritor infanto-juvenil é preciso tentar não repetir pré-conceitos e pregar visões adultas para um público infantil, mas sim trabalhar com as dores, dúvidas, anseios próprios das crianças, visto que elas também são seres humanos — é o que Lygia Bojunga faz.



Leia no Jornal Opção a resenha Uma obra demasiadamente humana e criativa, de Sinvaldo Júnior > AQUI.

6 de junho de 2013

O 'Manicômio' em Caldas Novas-GO

Olha que legal, gente. Vou lançar meu livro Manicômio (contos e novelas) lá em Caldas Novas-GO. Aos da cidade e proximidades ou visitantes, espero todos lá, viu. Vai ter muita gente boa lá, certeza!




24 de maio de 2013

Eis a questão

Como mexer em algo que nasceu pronto? Essa é a pergunta que faço toda vez que leio e tento revisar o conto "Clarissa". Faz quase dez anos que o escrevi (em 2003) e ele foi publicado praticamente como nasceu. Agora, por conta de um convite para participar de uma antologia, reli a fim de modificá-lo, revisá-lo, alterá-lo, se fosse o caso. Não era o caso. Não vou maculá-lo com meu "senso crítico", com minha "maturidade". É o mesmo que permitir que um adulto alise o cabelo e maquie uma bebê que já nasceu linda, encantadora. Pra quem se interessar em conhecer uma das minhas primeiras filhas, a Clarissa, basta clicar aqui > http://migre.me/eI08V 



18 de maio de 2013

Top 10 dos melhores livros da garota/poetisa Anna Cecília

É uma honra saber que entre os 10 melhores livros que a Anna Cecília Domingues Gonçalves leu, o meu "Manicômio" está na segunda posição (e à frente de 'O caçador de pipas' (Khaled Hosseini), 'A Culpa é das Estrelas' (John Green), 'Dom Casmurro' (Machado de Assis), 'Marley e Eu' (John Grogan) e Pedro Bandeira)! Quer conhecer a lista? Clique AQUI.

12 de maio de 2013

Um dia, quem sabe...

Um dia escreverei um livro cujas palavras te remoerão o estômago e te farão chegar à conclusão que a porra dessa vida vale a pena; que, apesar e por conta mesmo de sua condição e maldade e egoísmo, o ser humano ainda merece compaixão; que te farão regurgitar a alma e, algumas horas depois, recebê-la de volta pelos orifícios todos; que te farão ter vergonha e orgulho de ser o que é; que te farão o que nenhum calmante ou álcool ou droga jamais te fez; que te farão calar por toda eternidade. Um livro que me extirpará a alma logo após eu escrever sua última palavra. Será o livro da minha vida. E da minha morte.

10 de maio de 2013

O 'Manicômio' na Vídeo Park


Cinema e literatura é uma dupla artística que sempre caminhou lado a lado. A literatura, irmã bem mais velha, inspirou grande parte das obras cinematográficas brasileiras e estrangeiras. O cinema, irmão caçula, por sua vez também inspirou a linguagem de obras literárias, sobretudo as dos séculos XX e XXI. Em minha literatura, especificamente, não sei determinar ou mensurar a influência do cinema, mas sei que há, especialmente na construção da trama, algo que dou muito valor em minhas histórias. A escritura do Manicômio, inclusive, se deu num momento em que era um cinéfilo declarado (chegava a assistir 10 ou mais filmes por semana). Essa introdução é pra dizer que, em parceria com a Vídeo Park Locadora, o Manicômio (meu livro de narrativas), está sendo vendido em todas as suas lojas (veja endereços abaixo). Assim, ao ir à locadora com a intenção de alugar um filme ou um jogo, você poderá também adquirir o livro, que estará visível pra todos que amam o cinema e, de quebra, a literatura. Tudo a ver, né?
Conheça mais a Vídeo Park Locadora AQUI: http://www.videopark.com.br
A Vídeo Park Locadora está, em Uberlândia-MG, nos seguintes endereços:
_ Loja UMUARAMA: Av. Floriano Peixoto, 4291, Bairro Umuarama. (34) 3232-1808
_ Loja BRETAS: R. Eduardo Felice, 30, Loja 05, Bairro Vigilato Pereira. (34) 3237-2424
_ Loja CENTRO: Av. Getúlio Vargas, 603, Centro. (34) 3224-4957
_ Loja UBERLÂNDIA SHOPPING: Karaíba, Uberlândia Shopping. (34) 3225-6474

15 de abril de 2013

Até breve

Vou ali fazer uma reformulação rápida na minha mente e volto em breve. Não se preocupem, estarei bem suprido: estou levando iogurte, livros e um restinho de esperança. De quebra, selecionei algumas músicas que serão tocadas no ar, pois pra onde vou não há toca-discos, infelizmente. Beberei muita água, prometo. Não dançarei com o diabo (não gosto dele). Se Deus estará comigo aí já não sei. Não seria pedir demais, já que há 7 bilhões de seres humanos e ególatras suplicando, todo dia ou na hora da morte, por sua ajuda? Tenho medo de fantasmas, sobretudo dos meus, esses que resolvem aparecer quando menos espero e tentam me convencer que estou ficando biruta. Espero que eles não apareçam justamente no momento em que estarei sozinho e serei, por opção, o indivíduo mais solitário do planeta. Não levarei nenhuma arma de fogo ou de rosas, juro. Aproveitarei a oportunidade pra escrever o livro da minha vida. E como é o livro da minha vida, decorarei todas as suas palavras, entrelinhas e tramas e o jogarei fora logo depois. Ele ficará guardado aqui, ó, e será o meu bem mais precioso, juntamente com o(s) meu(s) filho(s), dentre os quais os que ainda não conheço e os que porventura nascerão. Prometo tentar levar à frente o projeto de Brás Cubas, que era criar uma fórmula que solucionaria/solucionará todos os males do espírito. Caso não consiga finalizá-lo, sejam bonzinhos comigo. Pensem pelo lado positivo: eu tentei. Caso consiga, darei as primeiras cápsulas às pessoas que mais amo, das quais não ouso dizer os nomes. Não tomarei muito café, ok? Prometo. Com a água, estou levando várias lembranças: tomarei goles e goles daquelas que me fazem sorrir feito bobo (mais ainda). Quando voltar (se voltar), serei alguém muito especial, ou seja, exatamente o que sou hoje. Até breve.





27 de março de 2013

Meus olhos verdes (fim)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 38 e 39 podem ser lidos AQUI

40 –

Hoje, véspera de Natal, nove dias após o mencionado anteriormente, Geisel está do mesmo jeito que o encontramos no começo desta narrativa, refletindo, pensando em coisas diversas, sentado numa cadeira, prostrado numa mesa pequena, se perguntando dos porquês de Jéssica demonstrar tanto amor por ele. Perguntando-se do motivo de existir dor se apenas tem vinte e um anos. Perguntando-se... Assim o encontramos neste exato momento. Depois de sair do hospital, ele veio embora intencionado em mudar de vida, esquecer o passado, bloquear o telefone (o que de fato fez) para não ser procurado por pessoas com quem não estava afim de conversar. Procurou não ficar em casa (e realmente pouco ficou. Vinha, quase sempre, exclusivamente para dormir), não conversar ninguém sobre o assunto passado (Jéssica), fazer de tudo para esquecê-la. É muito cedo para dizer se conseguiu e se os artifícios adiantaram... Deixemos o tempo passar... (Enquanto isso, riamos dele. Que seja um riso irônico ou sem graça. Mas riamos).

41 -

Há pouco ele tentou (em vão) encontrar palavras para a feitura de um poema. Forçou bastante, mas não as encontrou. “Não, eu não sou poeta”. À beira da pequena mesa em que estava prostrado, de súbito, surgiu-lhe uma imensa vontade de gritar. Não gritou. Levantou-se. Foi para o quarto. Não mais que repentinamente também lhe surgiu uma frase de efeito. Já no quarto, ao olhar por alguns minutos ao espelho surge-lhe a frase. Voltou à mesa. E, para terminar o seu conto (habilmente disfarçado em terceira pessoa. E agora, riamos? Não. Não tenho motivos para risadas. Ria sozinho) – então, para terminar o conto escrevo o que há pouco me veio, subitamente, ao ver minha triste e patética imagem refletida:

“É por esses olhos vermelhos, Jéssica
Que eu te odeio”


Fim.

*** ***

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24 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte XII)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 36 e 37 do folhetim podem ser lidos AQUI

38 –

Jéssica estava no hospital. Marina não dera detalhes sobre o assunto, mas dissera que a ex-namorada queria vê-lo hoje ainda no hospital. Ainda ofegante, Geisel tentava recompor o corpo, que se metera numa estúpida paralisação, e reordenar a respiração. Arrumou-se rapidamente e se direcionou ao local indicado por Marina. Ainda com os mesmos sentimentos pregressos, ele buscava explicações para o acontecido. Chegando ao estabelecimento soube (Marina estava na porta) que Jéssica havia sido estuprada no dia anterior e, antes, já tentara entrar em contato com ele, mas não conseguira. Atordoado, quis saber mais detalhes, contudo Marina preferiu deixar Jéssica detalhar (já que estava em condições, pelo menos de conversar. “Afinal, felizmente – como dissera a colega de sala de Geisel e amante (namorada?) de Jéssica – não tinha sido tão grave, fisicamente falando”). No corredor da enfermaria o rapaz encontrou os pais de Jéssica. Olhou-os e cumprimentou-os constrangido. Vencendo o constrangimento, perguntou como estava, no momento, Jéssica. O pai falou que estava melhor, mas ainda muito perturbada. A mãe apenas chorou, abraçada ao homem. Este completou que Geisel podia entrar, pois a filha queria vê-lo. Embaraçado diante da situação quis obedecer, de imediato, o decaído pai de Jéssica. Mas preferiu esperar e, talvez com a espera, se preparar – se recompor.

39 –

“Oi... – disse ela, deitada na cama do quarto branco da enfermaria.” “Oi – retornou Geisel constrangido.” A moça chorava brandamente. Não era de extravagâncias. Nem no seu chorar. Chamou-o para perto, não tivesse medo. Não era medo – quis falar. – Era... Não sabia o que exatamente sentia naquele quarto branco, estranho, a ex-namorada deitada naquela cama branca, estranha. Era esquisito estar ali depois de tudo que sofrera, depois de tantas respostas buscadas sozinho, ora no quarto pequeno de sua casa, ora na rua, andando como um zumbi, ou em qualquer outro lugar em que estivesse. Era muito desconfortável estar ali perto dela se até agora o que mais quisera foi que, pelo menos, telefonasse (Mas, eu... – tentaria ela) pedindo perdão por tudo que fizera, pela traição, pela dor que a traição lhe causara. Enquanto ele sofria, Jéssica deve que aproveitava com a amiga (amante?). Isso era o que mais doía: a dor que não demonstrava, a dor que ninguém vira nela, nem colegas em comum, que a viam sempre, nem Andressa, que um dia a vira passeando com Marina no shopping. Mas, no fundo, achava interessante essa alternância de sofrimento – antes ele, agora ela. Porém, Geisel em hora alguma fora consolado por ela (causadora da dor) e, agora, a moça buscava sua ajuda, mandara chamá-lo. “Não percebe que é muito estranho estar aqui perto de você depois de tudo? – ele disse serenamente. É muito estranho... – completou.” A jovem esboçou palavras. Mas ele: “Hoje, quando soube o que tinha acontecido com você, fiquei desesperado. Só melhorei quando soube que não era tão grave assim. Ainda bem... – uma pausa. – Você tá bem?... – outra pausa. Um silêncio forçado. – Como... Quem foi? – perguntou, esperando curiosamente (mas não expressa no semblante) a resposta.” Jéssica começou, agora explicitamente, a chorar. Passava as mãos nos olhos tentando limpá-los. Geisel olhava-a sério, de maneira paciente. Ela não queria falar sobre o assunto. No momento, não. Geisel esperava pela resposta. Apenas queria ouvir a confirmação. E ele   continuava ali, sério, com uma raiva disfarçada. Constrangido.Mas atencioso. Era mesmo tão difícil assim falar sobre o assunto? Pensava em perguntar pelos motivos que a fizeram traí-lo, mas preferiu não dar margem ao assunto e sofrer mais. Após trinta minutos de papo, ele quis sair daquele quarto, ir embora, pois não queria dar vazão para que as intimidades surgissem e penetrassem na já maltratada relação dos dois. “Eu lhe chamei aqui para pedir-lhe perdão – disse Jéssica, estendendo a mão direita.” “Depois conversamos sobre isso – pegando a mão dela. – Você tem coisa mais importante pra se preocupar agora. Um dia, quem sabe... – não completou.” “Espero que um dia você me perdoe... Apesar de...” “Não se preocupe – ele interrompeu, seco.” Geisel soltou sua mão, afastou-se um pouco, virou-se, e se preparava para sair quando: “Eu ainda te amo – disse a moça.” Ele estava de costa. Virou o rosto, ficou olhando-a seriamente e pensou: Não acredito em você. Nunca mais acreditarei em você – só pensou. Não lho disse. – Por mais que seja difícil, nunca mais acreditarei em você e em mais ninguém... – completou o pensamento (mas nada disse), ainda a mirando. Jéssica também o olhava, meio meiga, meio tímida, meio séria, meio tudo. Talvez esperasse algo vindo do rapaz... (a única expressão que poderia vir dele era um sorriso irônico, julgando a situação em que se encontrava. Mas não sorriu. Segurou-se). “Até mais... – disse Geisel, passou pela porta e, de costa, a trouxe, fechando-a.”


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21 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte XI)

Por Rogers Silva
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* Os capítulos 34 e 35 do folhetim podem ser lidos AQUI
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36 –

“Até que enfim a música ridícula que estava tocando acabou, pois não tem nada a ver com a situação que relembro agora. Quero uma canção que eu possa questioná-la. Talvez esta:
Eu tranco a porta pra todas as mentiras
E a verdade também está lá fora... Será que existe verdade lá fora?
A porta fechada me lembra você a toda hora...
Que tanto de ‘portas’ são essas?
Orientação...
Eu tranco a porta pra todos os gritos...
Que música sem sentido é essa?
E o silêncio também está lá fora. Lá fora só existe silêncio. Mecanicamente disfarçado por palavras vazias. Que só machucam. Ou para nada servem. Palavras, somente palavras...
Será que eu tô trancado aqui dentro?...
Que música sem sentido!
Será que as perguntas são certas?... Vou tirar da rádio e colocar um cd. Essa não! Não estou entendendo nada! Sem nexo já basta a vida! – mesmo chorando eu penso, indignado com a falta de razão para o que aconteceu. Eu preciso de motivos óbvios! Jéssica, eu preciso saber por que fez isso. Vem aqui agora e me diga!  em... Não consigo entender... 
Por que eu choro tanto, meu Deus? Talvez com o cair das lágrimas o sofrimento seja aliviado. Que se danem aqueles que queiram explicar meus sentimentos! Que se danem os psicólogos! Jéssica vai ser psicóloga... Que Jéssica se dane! Explique e dê-me solução! Progressos do ser humano, se sofre mais, mais? Me explique isso! Por que o homem, a cada dia, sofre mais e mais vazio fica?
Um cd. Outra música. Quero uma música que me faça relembrar de tudo, mas sem ódio, sem raiva, sem remorsos. Que a mágoa, aos poucos, acabe. Tomara. Ou... Comece. Começa:

Não sei por que você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristezas vou viver
E aquele ‘adeus’ não pude dar
Você marcou na minha vida
Viveu, morreu na minha história
Chego a ter medo do futuro
E da solidão que em minha porta bate
E eu... gostava tanto de você
Eu corro, fujo desta sombra
Gostava tanto de você...
Gostava tanto de você
   
O som melancólico e triste do piano ajuda minhas lágrimas caírem. Mas não caem como anteriormente, velozmente, desesperadamente. Realmente, eu gostava tanto de você.

Em sonho vejo este passado
E na parede do meu quarto
ainda está o seu retrato
Não quero ver pra não lembrar
Pensei até em me mudar
Lugar qualquer em que não exista
o pensamento em você

Aqui no quarto, não. Aqui há este espelho estúpido que me olha a todo o instante. Diminuirei o volume e ouvirei mais suavemente a canção. Vou para a sala...

Enquanto aqui permaneço, na sala, nesta mesa pequena, chorando, relembrando do passado – enquanto isso, ouço a música distante, baixa. E sorrio chorando quando relembro do sorriso espontâneo de Jéssica. De sua boca falando que me amava. Mas amava? Uma profusão de emoções. Lugares-comuns. Tenho o direito? Enquanto caem as lágrimas, a canção que lá do quarto vem ajuda-me a livrar do câncer que me corrói o peito. Ou o estômago?

Não sei porque você se foi... Não, você não se foi. Você está aqui, pertíssimo de mim. Você marcou em minha vida... Mas um dia esta marca irá embora. Sei. Chego a ter medo do futuro e da solidão que em minha porta bate... Bate. Entra. E toca:

E eu... gostava tanto de você

Eu corro, fujo desta sombra. Em sonho vejo este passado... Por incrível que pareça, na parede do meu quarto ainda está o retrato de Jéssica. Não quero ver pra não lembrar...

37 –

Vinte dias depois da inexplicável traição, Geisel ainda não falara com Jéssica. Acabara completamente o vínculo. Nem ela nem ele tentaram reatar, dar explicações, pedir explicações, se desculpar nesse tempo que passara. Geisel, no dia do seu aniversário (15 de dezembro), às sete horas da noite, numa sexta-feira, encontrava-se no quarto, deitado na cama, olhando o teto e pensando, quando o telefone tocou. Refletiu... Não. Repensou... Foi atender. Depois de tê-lo atendido e ouvido, com certa resistência, Marina falar, sentou-se no sofá, estranhamente paralisado. “Não é possível. Deus! Meu Deus! Isso não pode ter acontecido”. Não conseguia acreditar no que ouvira. O susto paralisou-o. Perplexo ante um mundo, o seu, que desabava, ficou ali, inativo. As palavras de Marina soaram novamente em seus ouvidos. Deixou-se cair no sofá.


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18 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte X)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 30 a 33 do folhetim podem ser lidos AQUI

34 –

“Liguei o Toca-cd. A canção. Aumentei ao máximo o volume. Que ninguém ouvisse o meu pranto. Mas
quem poderia ouvir o meu choro? Eu estava sozinho. Completamente só.
O telefone tocava.
Não escolhi o cd, apenas liguei o som e dei play. Qual teria sido a última música que eu ouvira ali, naquele quarto pequeno?
Eu estava desesperado, estava em pânico. Pode parecer exagero, mas eu nunca conhecera uma dor tão forte. Eu estava sofrendo. ‘Estava’ é piada. Estou... (Mas a canção ridícula que passa agora na rádio abranda a dor).
Naquele dia, a canção: Meu coração, sem direção...
Deitei na cama e desatei a chorar. Chorava alto, soluçava e fazia todos os tipos de perguntas que eu pudesse perguntar: Por quê? Por quê?! Por quê?!!
As estrelas vão me guiar...
E o telefone tocava.
Eu mordia o travesseiro. Assim diminuía o volume do meu choro. Que ninguém ouvisse. Mas a dor não diminuía com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. O travesseiro, em poucos minutos, estava molhado.
Não! Essa canção, não! Só no refrão percebi que a tal música que se executava no som foi exatamente a primeira que Jéssica me oferecera, um dia, numa dessas rádios. Dizia lembrar de mim todas as vezes que a ouvia.
E agora, se lembra de mim? Se lembra, Jéssica? Onde está o seu amor? Evaporou? Onde está aquele amor verdadeiro com o qual dizia que me amava? Me mostra. Eu quero vê-lo! Onde está?
Num beijo que jamais provei igual... Preferível fosse não ter provado. Um beijo de Judas. Um beijo que de tão doce se tornou amargo, como as lágrimas que eu provo sem querer agora – eu pensava, eu chorava.
O telefone tocando... Porra! Porra!
Se eu não te amasse... Agora não estaria chorando – murmurei, após ter tirado a música. Preciso de algo mais agressivo – pensei. Algo que me faça quebrar tudo que está em minha frente – exagerava por causa do sofrimento.
Odeio essa música! – gritei. Odeio você, Jéssica! Odeio esta dor que está no meu peito! Não. Não havia ódio em mim. Por incrível que pareça não havia ódio dentro de mim. Indignação, sim. Um enorme sentimento de injustiça. E constrangimento, vergonha. No meio de tantos cds espalhados pela pequena mesa, na qual ficava o aparelho de som, um me fazia lembrar de Jéssica. Um é piada, em tudo eu via Jéssica. Tudo que eu olhava me fazia relembrar aquela cena. Um cd que ela me dera. Um dos cds Love colection. Peguei-o, ainda chorando, um choro mais ameno, e de repente subiu um ódio tão grande que, quase sem perceber, joguei-o contra a parede. O resto do cd (a capa de plástico dentro da qual ele estava) espalhou-se pelo ar, caindo caindo ao chão.
Por quê? – após os porquês eu me derramava. Chorava, chorava, chorava...
E o telefone não mais tocava. Melhor assim.
Por que eu fiquei daquele jeito quando as flagrei, tão sem ação, tão sem palavras? Eu deveria ter dado uns murros na sua coleguinha, naquela cara lavada, cínica, que parecia achar o que faziam a coisa mais normal do mundo. Putas. Sem-vergonhas.
E Jéssica? Eu deveria ter gritado, falado tudo o que sentia! Entretanto, não consegui falar quase nada. Que cheiro é esse? Você está fedendo álcool! Você bebeu? Você está fedendo álcool com cigarro. Você fumou? Você está horrível, Jéssica! Por que me olha assim tão cinicamente?! O que faz agora não é nada normal. Não pense que vai sair assim, sem marca. Por que me olha assim? Por que me fala assim, tão duramente? Você está sendo injusta. Você foi muito injusta comigo, Jéssica. Muito... 
Por que me acusar de algo que você estava fazendo? ASSUMA SEU ERRO! Seja sincera, justa, verdadeira, e assuma seu erro! O que mais me doía, quando me lembrava do acontecido, era a expressão desavergonhada de Jéssica.
E aquela idiota que ficava ali nos rondando! Fala pra ela sair daqui senão vou matá-la – gritei.
Jéssica foi até Marina, encostou suas mãos nas mãos dela e disse-lhe alguma coisa. Eu ficava olhando aquela cena patética e dava-me uma vontade de ir lá e... Fazer algo que as machucasse, que as fizesse sentirem a dor que eu estava sentido. Humilhá-las, pensei em humilhá-las. Mas só pensei. Não tive, em momento algum, atitude para fazer qualquer coisa. Eu me encontrava estático. Nada disso está acontecendo comigo. É tudo um sonho. Isso! É tudo um sonho – eu pensava ali, enquanto Jéssica se justificava me acusando. Sim, ela tentava se explicar (Engano seu... – dizia) e me acusava (o culpado sempre acusa). E não era um sonho...”

O texto acima se encontra digitado em duas folhas A4 que, próximas a outras, jogadas de qualquer maneira em cima da mesa, numa sala pequena, na casa de um jovem, transmitem um aspecto de desorganização.

35 –

Quinze dias se passaram. “Foi uma maneira que ela usou pra superar a insegurança que sentia em relação a você – disse Andressa a Geisel.” Estavam na casa da moça, e Geisel em seu colo. Andressa fazia carinhos, passava as mãos no rosto dele. “Mas... – não completou. – Nesses últimos dias não houve um minuto sequer em que eu não pensei nela; aonde quer que eu ia, eu via seu rosto – nas paredes, na TV, nos rostos de outras moças, em tudo; um minuto em que eu não tentei achar reposta lógica de Jéssica ter feito isso. Não houve um dia sequer em que eu não sonhei com ela.” E acordava atordoado, pois Jéssica e Marina riam sarcasticamente dele. Ora acordava com falta de ar. Levantava, pois tinha medo de dormir e sonhar, e sonhar com ela. Sonambulava pela casa, ligava a televisão, e as mesmas porcarias de sempre. Deitava com medo, mas também com esperança de dormir rapidamente. Porém, os olhos ao teto, enxergava claramente a fisionomia de Jéssica, e ela ria, e ela chorava, dizendo (hipocritamente) que nada fizera. “É pior tentar achar reposta. Esse tipo de coisa não tem explicação...” “Eu acordo e durmo pensando nisso...” “É porque ainda está muito recente...” “Uma dor tão forte e tão constante... Tenho medo de... Um dia, de tanta raiva (acho que nunca senti tanto ódio na minha vida), eu dei um murro tão forte, mas tão forte na parede, que sangrei a mão.” “Pára, vai – tentou melhorar o ânimo do rapaz, abaixou o rosto e deu-lhe um beijo. – Me promete uma coisa?” “O quê?” “Que nunca mais vamos falar sobre. Esqueçamos. Bola pra frente.” Geisel sorriu (um sorriso amarelo) e disse: “Tudo bem. Prometo.... – mas interrompeu-se bruscamente. E completou – Tenho certeza, Dressa, não sei o por que, talvez uma intuição, mas isso não vai ficar assim.”



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15 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte IX)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 27 a 29 do folhetim podem ser lidos AQUI

30 –

“Você vai vir no seminário amanhã à noite? – perguntou um rapaz da sala de Geisel, ao saírem do bloco de Geografia, terminada a aula de sexta-feira.” “Vou sim, e você?” “Vou também. Acha que vou perder um seminário de Geografia econômica? É a minha área, pô.” Os colegas já tinham descido a escada e, agora, se encontravam em frente ao carro de Geisel. O rapaz despediu-se e foi em direção ao seu carro. Geisel: “Nos encontramos amanhã, até mais – despediu-se também.” Ao ir embora para casa, o vento frio, a velocidade baixa, Geisel reparava por onde passava. Num muro branco leu, negra, a pichação:

ninguém é inocente
ass: eu, O Fera

E se lembrou, algum dia, remoto talvez, ter escutado o mesmo.

31 –

Geisel, após chegar em casa, trocou a roupa, foi à cozinha comer alguma coisa, se sentou um pouco na sala e se direcionou ao quarto, seu local favorito. Pensava, ao olhar aquele espelho grande, em como o ganhara. Seus pais, antes de ele vir para Uberlândia, disseram-lhe para trazê-lo. Tinham-no comprado numa dessas lojas de móveis antigos, numa viagem ao Rio de Janeiro. Acharam-no lindo e instigante. Geisel tinha dez anos quando compraram o objeto numa loja do Rio. Agora, ele foi ao som e colocou uma música da Ivete Sangalo, deitou na cama e, embalado pela melodia da canção, olhando distraidamente a moldura desgastada do espelho, pensava em Jéssica. Achava que ela tinha sido a melhor coisa que acontecera em sua vida. No dia seguinte, sábado, acordou cedo e foi ao shopping trabalhar. Chegou em casa às seis da noite. O seminário começaria às sete. Precisava se arrumar rapidamente. Desde quinta-feira não falava com Jéssica, por isso, ao tomar banho, se vestir, pensava nela... Durante toda a tarde, tentara se comunicar com ela, falar-lhe do evento acadêmico no sábado, mas não a encontrara. Pelo telefone sua mãe dissera que Jéssica havia saído. Mas Geisel, agora em casa, não se preocupava em não tê-la encontrado, pois pensava nas últimas palavras ditas, estranhamente, na quinta-feira, último dia em que se falaram: Eu te amo, viu? Nunca deixe de acreditar nisso – e desligara o telefone. Falara meio soluçosa.

32 –

Geisel descia pela avenida Segismundo Pereira, no seu Chevette rebaixado, curtindo o aroma do vento que, suave, passava a impressão de que a noite ia ser agradável. Uma noite agradável – pensava. – Depois do seminário, se não demorar, vou ligar pra Jéssica ir lá pra casa. Aproveitar a noite... O seminário ocorreria no auditório do Bloco B, perto do Bloco A e, um pouco mais acima, do Bloco J. Estacionou o carro em frente a este bloco e, ao fechar a porta, avistou um casal (Ou não... – pensou), bem próximo um ao outro. Geisel se direcionou rumo a eles, pois teria que passar por perto para ir ao bloco onde aconteceria a palestra. De repente, um baque. Ao olhar involuntariamente para o casal que parecia namorar, tão grudado, sentado no mesmo banco em que ele tinha dado o primeiro beijo em sua namorada, um grande abalo. Um tremor tomou conta do seu corpo inteiro. Ficou sem palavras, sem ação, sem percepção dos sentidos, completamente desorientado ao enxergar os olhos brilhantes de Jéssica (aparentava um olhar apaixonado) direcionados a... a... que-que..., meu Deus!, a beijava? “Agora sim, tá tudo claro!” Despediam-se? Já?! Marina, após o-o, Deus, beijo?, e um beijo apaixonado, sim!, viu Geisel parado, olhando, perplexo, e se assustou. Apontou o indicador, cutucando Jéssica. “O quê?” Jéssica, uns cinco segundos depois, também o viu. Não pareceu se assustar muito. Apenas arregalou um pouco os olhos. Mas recompôs-se. E olhou-o com um semblante tão calmo que aquilo fez crescer sua raiva momentânea. Uma confusão de sentimentos o atormentava. “Agora sim!” Não sabia o que fazer. “Tava na cara!” Pasmou-se ante a inexplicável traição de Jéssica. E logo com ela, com Marina.

33 –

Enquanto Jéssica tentava se explicar, acusando-o de estar tão ausente ultimamente (Ausente? – não se conformava com as desculpas) e dizendo que mesmo assim nada fizera, agüentara, apesar da carência, Geisel olhava-a e se lembrava de forma confusa do quadro de armação bronze com rajadas negras que dois dias antes mandara fazer, o rosto dela estampado – uma foto, ampliada num estúdio, que tiraram numa dessas viagens de reconciliação. Um quadro que daria à namorada, mas, enquanto não lhe presenteava, tinha o colocado na parede do seu quarto – substituído o mapa da cidade natal pela peça. O rosto concreto, este, se fundia ao rosto da foto. Um semblante tão estranho, tão desconhecido dele. Como, em mais de nove meses, nunca percebera essa feição? Deus, como pude ser tão tolo? Por que ela fez isso? “Por quê?!! – e o grito instintivo.” Jéssica se assustou. Mas forçou para permanecer na situação de aparente normalidade que escolhera forjar. Marina ficava a uns cinco metros de distância olhando-os, com um semblante entre constrangido e cínico. Depois de Jéssica dizer a Marina algo, talvez que queria conversar com Geisel, que as olhava (com um olhar incompreensível), parado – depois ela se afastara. Agora Geisel e Jéssica conversavam. E Marina (pouquíssimas pessoas espalhadas, aqui, ali, cúmplices) a uma certa distância os observava.


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12 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte VIII)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 23 a 26 do folhetim podem ser lidos AQUI


27 –

“Tá acontecendo alguma coisa entre você e a Jéssica? – perguntou Marina, dentro da sala, no meio de uma aula de Geografia do Brasil Centro-Sul.” “Por quê? – estranhou Geisel.” “Não, é porque... Nada não, deixa pra lá...” “Por quê? Como assim?” “Vocês brigaram? Sei lá, terminaram o namoro?...” “Não... Quero dizer... Antes de ontem nós brigamos, mas foi coisa de nada, sem importância. Por quê?” “Não, é porque ela tá diferente.” “Diferente como?” “Ah, sei lá. Diferente...” “Como assim?...” Foram interrompidos pelo professor. Disse que estavam conversando demais. Antes de a aula terminar, Marina havia ido embora.

28 –

No sábado próximo, no começo de setembro, Geisel chamou Jéssica para realizarem um programa diferente. Viajar durante o final de semana, sei lá... – e tentava dizer que queria alguma coisa incomum, algo que nunca tinham feito. A moça não pensou em nada, indiferente ante a proposta dele falou que neste final de semana não poderia ir. “Como está a faculdade? Está tudo bem lá? – perguntou ela.” Os dois estavam no shopping, sentados no meio da praça de alimentação, lanchando. Geisel estava em seu horário de almoço. Ele, então, chamou-a para irem ao cinema hoje à noite. “É... Talvez... Eu estou adorando o curso de Psicologia – disse Jéssica, que havia passado no vestibular de julho.” Começara o curso no começo de agosto. Também falou sobre mini-cursos, palestras, reposição de aula no sábado, entre outras coisas. Por estar perto do namorado (aproveitava a curta distância e) passava a mão direita nos cabelos e no pescoço dele. Antes de ela se levantar e sair, disse que o amava e ligaria para ele mais tarde, após o serviço. Geisel, ciente de que precisava fazer algo ou o namoro esfriaria de vez, pensou em dizer que também a amava. Não disse. Jéssica, os característicos olhos castanhos, olhou-me tão carinhosamente (e nesse olhar percebi uma sutil ironia), abaixou-se e deu-me um beijo demorado. Estremeci.

29 –

Jéssica não ligou na noite combinada nem nos dias posteriores. Ficaram uma semana sem se falar. O namorado achou estranha sua atitude, porém também não fizera questão de tentar lhe falar nesse tempo. Depois, quando se encontraram: “O que tá acontecendo? – ele perguntou.” “Como assim?” “Como assim? Você sabe muito bem do que estou falando. Você anda desligada, estranha...” “Deve ser o curso, está meio apertado ultimamente. É, deve ser isso...” “O bom é que você age como se nada estivesse acontecendo.” “Ah, Geisel. Você se afastou de mim, diminuiu o carinho, a atenção... Você mudou...” “Como assim eu mudei? Eu não mudei nada. Não sei onde você acha que mudei – inquieto, ele.” “Ah, sei lá... Só sei que você mudou muito. Muito mesmo – indiferente, ela.” Silêncio. Jéssica continuou: “Sabe o que é engraçado? Por mais que você se controle às vezes, você ataca para se defender. E nem percebe...” Novo silêncio. “Tá muito difícil conversar com você. Muito difícil mesmo. Você sabe que gosto muito de você, que sempre te respeitei, fiz de tudo pra que estivéssemos bem, mas... Você insiste em falar que mudei... Pelo jeito que as coisas vão, prefiro que a gente termine do que... – Geisel disse e desviou o olhar.” Estavam na casa dele, dentro do quarto, sentados na cama de casal. Só o espelho grande os olhava. Ela, depois da proposta, mudou bruscamente o semblante: de indiferença à preocupação. Após alguns segundos meditativa, sorriu e disse: “Larga de ser bobo... Que terminar o quê... – abraçou-o e deu-lhe um beijo no rosto. – Gostamos um do outro, pra quê terminar?” “Mas...” A namorada interrompeu-o dando-lhe um beijo e levando seu corpo, deitando-o na cama. Fizeram amor como poucas vezes tinham feito até então.

Depois disso, tudo pareceu voltar ao normal no relacionamento do casal. Saíram mais vezes: shopping, bares, restaurantes, parques, motel, viagens etc. Tentavam, assim, não deixar o namoro entrar na apatia. Por meio de olhares, presentes, atitudes, Jéssica transmitia o ar apaixonado do início do relacionamento. E Geisel também: tudo ao seu alcance para prolongar o mesmo sentimento de oito meses atrás era feito. Assim, os acontecimentos de novembro de 2000 lhes passavam despercebidos.



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9 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte VII)

Por Rogers Silva
* Os capítulos 20 a 22 do folhetim podem ser lidos AQUI 

23 –

Geisel, pelo fato de morar sozinho, podia a qualquer momento levar a namorada para a sua casa a fim de ficarem sozinhos, livres. Os pais dele moravam em Araguari, cidade vizinha. Há dois anos e meio deram todo o apoio para que ele viesse para Uberlândia estudar. Às vezes sorria, sozinho em casa, na sala de aula, ou na loja em que trabalhava, só de pensar em algum momento passado com Jéssica. Alguma graça contada, algum leve ciúme expresso, algumas frases de carinho, alguma manifestação de prazer: todo o momento passado junto à namorada era motivo para Geisel sorrir um sorriso desconexo. Passaram-se seis meses desde que ele, na praça Tubal Vilela, vira, junto com Marina, Jéssica pela primeira vez. A princípio não dera importância à moça mediana, cabelos negros, crespos, meio anelados, olhos castanhos e pele morena embaçada. Hoje, quatro meses de namoro. Agora, em junho, quase no final do semestre, Geisel conseguia levar as tarefas do curso de Geografia, o emprego, a vida com os pouquíssimos amigos (talvez só Andressa), e o namoro, até o momento, otimamente. Tirando os intensos ciúmes que Jéssica às vezes deixava transparecer, principalmente em relação à Andressa, tudo ia muito bem. Ele, algumas vezes, achava graça, outras vezes não gostava, pois não queria que nada comprometesse sua relação com Andressa. Os dois (Geisel e Andressa) eram maduros o suficiente para saber o que faziam e assim não deixarem nada atrapalhar o namoro dele (que, aliás, não era muito do agrado da amiga) e a amizade de ambos. Independente disso, Jéssica insistia em sentir-se insegura em relação a outras moças e, principalmente, a Andressa, por esta ser tão próxima do namorado.

24 –

Durante todas as férias o casal de namorados se aproveitou. Amaram-se quase todos os dias, cada dia que passava com mais intimidade, experiência e prazer. Geisel, às vezes, ia à casa de Jéssica, conversava com seus pais, brincava com sua irmã. Jéssica perguntava-lhe o dia em que iria conhecer seus sogros. Ele disse que, no final de semana próximo, iria à casa deles e perguntou se ela não queria ir também. Jéssica não poderia ir, já tinha compromisso. Geisel foi a Araguari ver os pais. Em quatro meses de namoro, os dois, pela primeira vez, se separaram. Uma saudadezinha de vez em quando é bom – se confortava Jéssica, cuja insistência para não deixá-la sozinha quase o fizera desistir. No entanto, depois da explicação de Geisel, pois já fazia algum tempo que não via seus pais, ela cedera.

25 –

Já em Uberlândia: “Você já percebeu a mania que Jéssica tem de desviar o assunto?  ania de digressão? – perguntou Andressa a Geisel.” Os dois estavam na casa da moça, assistindo a uma comédia. “Você não gosta dela de jeito nenhum, né?” “Que isso. Não tenho nada contra ela não, sô.” “Não... – ironizou.” “Se ela souber que nós dois estamos assim sozinhos, o que faria?” “Ishi... Sei lá... Ela tem um ciúme de você – enfatizou.” “De mim? De todo mundo! Só que ela disfarça até bem.” “Ha-ha-ha – riu Geisel ao ver uma cena engraçada do filme.” “Ha-ha-ha-ha – também riu a amiga, achando graça na paródia.” “Como eu sou boba, né.” “Por quê?” “Estou sozinha com você e não faço nada. Eu sou uma besta mesma.” “Larga de ser boba, sô – brincou Geisel, demonstrando certo carinho irônico em seu olhar.” Estavam na sala, cada um num sofá. Não deixaram, eles, de ser amigos, como já foi dito, mas diminuíram um pouco a intimidade de antes. “Eu poderia ir muito bem aí onde você está e te dar um beijo, não acha?” Geisel a olhava, numa posição meio desconfortável, e se deleitava com a brincadeira. Andressa, com seu charme, beleza, pele amarronzada e inteligência sedutora, foi a Geisel, que esperava. Era impossível olhar para Andressa e não enxergar uma figura de mulher fatal, objeto sexual por conveniência (ela gostava de se sentir desejada) que ela encarnava. A verdade é que ela, se quisesse, conseguia
excitar e desestabilizar qualquer homem. Mas Geisel era resistente. Era? O rapaz tinha, sim, um carinho enorme por essa jovem bonita, simpática e madura. Inteligentemente sabia fundir, ela, a seriedade e o charme à graça e às brincadeiras que fazia. Além do mais, possuía um corpo lindíssimo, que nu já fora visto por Geisel.

26 –

O tempo ia passando e a monotonia começava a adentrar no namoro de Jéssica e Geisel. De um namoro totalmente prazeroso, em seis meses, passou para um relacionamento seguro e menos intenso. O sentimento ainda continua – achava Geisel. O que passou foi a exaltação da paixão. Mas sabia, ele, que a maioria das relações era assim mesma. Começava no cume, depois descia gradativamente. O importante era ter isso em mente – concluía. .



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6 de março de 2013

Meus olhos verdes (parte VI)

Por Rogers Silva

* Os capítulos 18 e 19 do folhetim podem ser lidos AQUI

20 –

Vários telefonemas. Mais alguns encontros. A paixão e a intimidade crescendo entre eles. O conhecimento – por parte de Geisel – da família (pai, mãe e irmã) de Jéssica. Presentes (ele dera a Jéssica um quadro, bombons, anéis, correntes e pulseiras e, por incrível que pareça, numa atitude inédita, até flores. A jovem dera bem menos para Geisel: uma bonita camisa e uma coleção de CDs com músicas românticas). Eis o que se passara, resumidamente, nos primeiros três meses. Os pais da moça aparentaram gostar do rapaz: inteligente, bonito, bem-educado, maduro – como Jéssica dissera a ele próprio, usando as palavras deles. Geisel dava-se bem com a irmã de Jéssica, uma adolescente de 12 anos. Às vezes reclamava, brincando: ele dava mais atenção à sua irmã que a ela, sua namorada, ora!

21 –

Resumindo, a Perfeição em três meses. Mas em ficção (ficção?) não há aberturas para resumos, e sim verossimilhança acima de tudo. Em meio semestre, o desejo de se verem, de se falarem, de se abraçarem, de se beijarem, aumentou a cada dia que passou. Não houve um dia sequer que eles não se falaram. O telefone os ajudou quando não foi possível o encontro. A moça era mais arrojada e demonstrava estar mais apaixonada. Exatamente três meses depois do primeiro beijo do casal, num sábado de manhã, Jéssica ligou para Geisel, dizendo que desejava passar o dia todo com ele, a fim de namorarem e fazerem tudo. “Por mim, tudo bem. Hoje eu estou de folga mesmo.” Já de manhã, às dez e meia, foram para uma praça localizada no centro da cidade. Os dois: sentados num banco; abraçados; os rostos virados um para o outro; os olhos apaixonados, dizendo: Eu te amo eu te amo, simultaneamente; as mãos entrelaçadas se acariciavam. “É tão bom estar aqui assim com você. Saiba que nesse tempo que estivemos juntos não houve um momento sequer que não quisesse estar perto de você – dizia Jéssica.” “A melhor coisa no meio de trabalho, faculdade, falsos amigos – excluindo Andressa, é claro (Jéssica soltou um Ah! de ciúme e aparente desaprovação) –, é estar com você.” “Por que você sempre tem que falar na Andressa, hein? – disse, revelando a falta de afinidade pela outra, já demonstrada desde que elas se conheceram há dois meses atrás na casa de Geisel.” “Pára com isso, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Pára, vai, me dá um beijo – e puxou a moça brandamente pelo pescoço.” Jéssica não resistiu e o beijou, mas não deixou de demonstrar o descontentamento perante a pronúncia do nome de Andressa. Pareceu preferir esquecer o assunto. Geisel deitou no colo de Jéssica, dobrando as pernas em cima do banco. Os olhos de Geisel, sob os raios do sol forte, expunham uma beleza incrível, dizia a namorada, que fazia carinhos, alternando entre os cabelos, o pescoço, o peito e os braços dele. Freqüentemente ela exclamava, os olhos direcionados aos outros: “Meus olhos verdes...” A princípio, na primeira vez em que ela dissera isso, ele não entendera. Mas ela, antes do rapaz perguntar “Como?”, completara: “Só meus – e repetira: – Meus olhos verdes.” Hoje Jéssica insistia em repetir: “Seus olhos são tão lindos. Seus, não. Meus... Meus olhos verdes...”

22 –

A noite, após uma breve chuva à tarde que atrapalhara o casal, pois combinara em passar o dia todinho juntos, ao ar livre, estava fria. No som, a música-clímax da paixão: Total eclipse of the heart. Geisel fizera questão de colocá-la num momento tão especial. Geisel, ao colocar primeiramente essa música, e depois programar, no aparelho de som, a repetição dela meia hora depois, pensava com isso começar beijar-lhe o corpo, acariciar-lhe o corpo, no instante da execução (repetição) de Total eclipse of the heart. O rapaz fizera questão de escolher dois da coleção de cds que Jéssica lhe dera dos cinco que introduzira no aparelho. Primeiro, o modesto mas bem preparado jantar – uma leve refeição feita por ele. Jantavam, conversavam, ouviam-se com prazer. O pensamento dos namorados, onde estaria? Na cama, no corpo alheio, no beijo alheio, ou no corpo e prazer próprios? Geisel pensava em dar e receber prazer. E Jéssica? Ao abrigo de Because you loved me (Celine Dion), os dois foram se beijando para o quarto. Lá, caíram-se na cama de casal. Nenhum pudor, nenhuma tradição, nada parecia atrapalhá-los. Já no quarto, e agora (quão minúcia!) Total eclipse of the heart novamente, Geisel se encarregava de beijar-lhe o rosto, o pescoço e, após tirar-lhe (caía, poética e pateticamente) o vestido de seda dourado, beijava-lhe os lindos seios, a barriga, as pernas e as demais coisas. Com suavidade e experiência Geisel virava a namorada a fim de também lhe beijar o pescoço, a nuca, as costas, a bunda. Aproveitava o momento e deslizava, com vigor, sua língua sobre todo o corpo de Jéssica. A música parecia aumentar a excitação e o prazer dela, embora ainda não tivessem ultrapassado as carícias e os beijos. A luz acesa, a cama, o quarto – e tudo que nele havia parecia submergir ante o ato do amor. Somente o espelho – um grande espelho, obra rica e majestosa – sobressaía. Encontrava-se a uma certa distância, no meio da região lateral da cama de casal. Um antigo objeto, obra do século XVIII ou XIX, muito desgastado, no qual se viam uns delfins modelados nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola (substância nacarada da concha dos moluscos) e outros caprichos do artífice feitor. Pelo reflexo, ora Jéssica via o corpo nu de Geisel, ora ele via o corpo despido dela. Depois, já deitados na cama, também pelo espelho às vezes Geisel reparava no ato sexual, seu corpo invadindo o corpo da outra. Gostava dessa primeira vez em que era invadida. Ao gozar não sabia se ria ou chorava. Sentiu algo tão estranho e tão inexplicável em suas entranhas, que chorou. Lá fora, apenas uma noite fria.



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